Poesia para despertar Sophia

Poemas inspirados em vivências filosóficas

Detém-te e olha à tua volta, antes, adiante.
Atentamente, olha também dentro de ti.
Há algo raro e especial neste instante,
que já não pode esperar para ser visto.
Há um sinal oculto atrás de tudo isto,
e há que lê-lo antes de seguir em frente.

Há qualquer coisa a colher, talvez a flor
de um jardim distante, antigo e esquecido.
Há um recado a entregar e a receber,
e algo a sarar, algo a polir, alguma dor.
Há uma conta a acertar, um beijo a dar,
um ponto a ver.
E há que examinar as malas e rever
se nada urgente foi deixado para trás.
ou se nada é demais,
se há peso morto a abandonar agora...

Há que escorar, ainda, um galho que está torto
de uma roseira bem ali, perto da casa.
Há uma ave que quebrou a frágil asa
e não consegue mais voar ou se mover.
Há tanto ainda para ouvir e para ver...
Não estás pronta,
não é ainda,
não é agora.

Em algum canto, há alguém que ainda chora,
e sabes que também é teu, o árduo pranto.
E há amor a cultivar e a colher, tanto...
E há mil palavras à tua espera para ser ...
Não é agora.
Não deve ser.

Recolhe em ti todo teu ímpeto e cansaço,
guarda contigo teu assombro e traz teu encanto.
Quando te fores, antes do último passo,
tudo há de estar quitado e pacificado.
Não porque temas ou infernos ou pecados,
mas porque sabes que é este o teu dever.

Sabes que há em ti duas vozes, pelo menos,
e uma ainda deve à outra o grande acerto
antes do qual não há epílogos ou acenos
mas só o imperativo:
Deves Ser.
E, isto sim,
é para agora.




Verão
voragem de vida
que, com luz, varre a terra: bem vinda!
Onde o impulso dos ciclos se finda
e imprime suas marcas no chão...

Veraz
projeção de ideias no mundo,
mandamento que ordena e ilumina,
como fosse a própria mão Divina
que se estende aos dedos de Adão.

Veremos
nosso solo irradiar e arder,
em seu cume de brilho e poder,
aquecendo a quem deve aquecer:
os diletos frutos da estação.

Veloz
vai quebrando a inércia humana,
semelhante ao audaz caçador
que contempla a desnuda Diana,
soberana em Beleza e Valor,
Natureza.
  
Valeis
como um prêmio aos que hão semeado,
como um sonho, num mundo gelado,
que nos fez prosseguir, caminhando,
mesmo imersos em tal escuridão...

Valemos,
pois aqueles que aqui estamos,
conquistamos tua luz e calor,
e, por nós, em um ato de amor,
ofertado a um tempo vindouro,
outros homens de ouro... Verão.



Tua presença, densa, roça em meu rosto,
mas não alcanço transportá-la
ao ponto de serenidade e de descanso,
onde se faz tão esperada e necessária.

Sozinha com meu gato, recolhida a um canto,
Sob a luz de um suave raio e um breve vento,
tento entender, com meu escasso entendimento,
o que escapa ao amplo campo da ilusão.

Queria que meu coração fosse uma rede,
onde partículas Tuas fossem retidas,
Partículas de luz e de vida...

Lembra que ainda não cresci o suficiente
para deixar de temer a escuridão!

Nunca cheguei a ser tão plena e tão pura
para alcançar ser tão segura, e conter
tudo o que tens mandado para mim.
Não sou, ainda, de fato, nem de perto,
o que o atrevido sonho tentou Ser...

Mas posso ser a resistente rede,
de malha bem forte, cerrada,
onde a gota de Ti seja retida,
como passaporte para a vida.

Onde a parte de ti seja guardada,
e a que resta, seja sempre descartada,
para sempre, escoada e esquecida.

Guardada, assim, a parte certa, em campo aberto,
talvez conduza a Tua presença ao ponto certo,
e, só então,
jamais me sinta, de novo, dividida,
jamais perceba de novo a solidão.



Bem antes de te conhecer, eu já possuía
expectativas e imagens essenciais;
sem fundamento em crenças, ideologias,
eu já sabia que o especial, na vida,
se o houvesse (e haveria!),
viria dali; encontro ou reencontro,
em uma curva deste tempo, em algum ponto
onde o impulso pueril das fantasias
não estava mais.

Não te buscava: buscava paz e sentido,
e era o que também buscavas, e algo mais.
Da infância como bailarina, eu te trazia,
e já sabia, com o faro de menina,
que há que achar o passo e o ritmo da vida,
e executá-lo com beleza e maestria.

Munida com minha intuição e tua certeza,
Desde este então, temos bailado e bailado,
honrando o pacto entre nós, nossa ousadia,
que, um dia, por alguém, nos foi atribuída,
de circular em espirais, quando houver vida,
dançando, ainda que a canção não toque mais.



Não há em ti, é mais que certo, outro espelho,
tão fiel ao portador,
em suas opacidades e em seus brilhos,
que a tua dor.

Mostra o teu rosto, com suas marcas, cicatrizes,
teu rio em curso, tuas nascentes, tuas matrizes,
sempre bem mais preciso e mais profundo
que qualquer outra projeção que haja, no mundo.

Tua dor mapeia, exatos, teus limites
para que os busques
ou os evites.

Expõe princípios, esmiúça os teus vícios,
centro e diâmetro de tua circunferência,
que buscas mensurar, desde os inícios.

A dor que segue à explosão de um dia,
como uma fuga segue a uma melodia,
demarca o espaço e o palco para tua ação.

Se feres algo, feres sempre a ti mesmo...
Em todo agir desconcentrado, a esmo,
é sobre o centro que incide a colisão.

Mas, quando vêm os luminosos dias
que o Centro-Sol chega aos limites e irradia
em cada ponto da circunferência...

Ah! Nestes dias, sabes pelo que existes...
Em algum lugar, tomas assento e assistes
à grande diva em estrelato: a tua essência.

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