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Grata, Lúcia Helena.
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Lúcia Helena Galvão
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Lúcia Helena Galvão
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"Procura a satisfação de veres morrer
os teus vícios antes de ti." (Sêneca)
Tendo vivido sob a égide de Atena,
sob esta mesma imagem, hoje, eu repouso.
Sobre esta terra em que o meu corpo pouso,
peço que o sono seja só o suficiente,
nada mais,
para afiar e renovar minha alma ardente,
e renascer na terra entre os meus iguais...
Pois os filhos de Atena,
do poderoso Zeus, da Métis, tão serena,
encontram na ação prudente a sua paz.
Para o descanso, quero ter um só momento,
e pouca sede levo ao rio do esquecimento,
guardo a missão, que não se perderá jamais.
Para os que amo, a certeza e a segurança:
o amor real é pacto sólido, aliança
que o fio contínuo, vida e morte, só valida.
E aos que eu não conquistei amar ainda,
quando esta forma me abandona e a vida finda,
firmo, em nome da Unidade, um compromisso:
ainda que haja um precipício de egoísmos,
Trabalho, Amor, Vontade sempre vencem abismos...
Hei de tornar à terra e trabalhar por isso.
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Lúcia Helena Galvão
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Os Deuses me enviaram o mais precioso dos presentes;
tornei-me anfitriã do mais ilustre visitante,
requinte dos requintes,
altivo e radiante,
poderoso Amor.
Vinho de nobre linhagem
vertido em tão rude Graal,
recusas os limites de teu pobre recipiente,
explodes em meu peito,
expandes minha vida para além de qualquer margem.
Ave de vôo potente,
indomável, divina arte,
causas êxtase e vertigem
em quem tenta acompanhar-te.
Com tuas garras, dilaceras
o ousado portador
que anseia por contê-lo.
Dilacera-nos de dor,
e, ainda assim, como és Belo !
Não te vás nunca, Graça Divina,
tão grandioso sentimento
que atravessa todo o mundo,
impetuoso qual fosse o vento.
Se tu partires, não serei nada,
apenas ermo e vão castelo
onde a Psique, desconsolada,
chora a perda do Ser mais belo.
Fica, ainda que tu diluas
as margens deste meu coração
com seus limites imaginários.
És Alkahest, solvente universal,
dissolves o portador temerário
que ousa tentar te conter.
Eu te percebo, às vezes, árduo e cruel,
mas, ainda assim, te quero em minha vida.
Ainda que me negues tuas sombras neste mundo,
ainda que me cegues e exponhas minhas feridas,
ainda que não me dês nada, nada mais
senão o delírio de tua presença,
eu quero estar contigo.
Para quem te sonhou doce, és demasiado amargo,
para quem te crê frágil e lânguido,
és demasiado forte, viril e guerreiro.
Mas não há algo tão belo como és, no mundo inteiro.
Permite, Ser Divino, meu acesso a teu Séqüito,
humilde e despojada de adornos que me impeçam de voar.
Toma-me em tuas garras,
cruzando os ares no ardor deste teu vôo,
vendo o mundo a partir da altitude em que tu o vês,
vendo e amando o mundo através de teus olhos,
ainda que me dilaceres, desmontes e desfaças
e me reconstruas
na forma que escolheres para mim.
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Lúcia Helena Galvão
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De toda a energia, doar
até o último fôlego.
A cada dia, marchar
até os pés do crepúsculo.
De cada flor, entregar
até a última pétala.
Pois que não há sentido
em querer, como nossa,
uma gota sequer
do néctar que alimenta a grande Vida.
De toda a dor, entregar
até a última lágrima.
De todo alento, doar
como fosse uma dívida.
Com todo o amor, fabricar
deste mais puro bálsamo,
que torna mais leve a caminhada,
malgrado todas as feridas.
De toda luz, vou portar
a menor de tuas lâmpadas.
De tua mão, vou tomar
não mais que um só átomo
que sacie minha sede
e me torne uma fonte
que fecunde esse vale
e dê um novo fôlego
aos que ascendem rumo ao horizonte.
Nada mais ansiar reter, por ilusão,
mais nada.
Só caminhar e alcançar sentir-me, então,
parte desta estrada.
Alçar vôo da mais alta montanha
e ousar ver, enfim,
a unidade daquilo que há em tudo
com aquilo que há em mim.
Esgotar de vez a lógica e o sentido
de um mundo cego,
que ousa dividir o infinito
entre aquilo que acredito
e aquilo que nego.
Levar à exaustão todo o recurso,
toda a razão,
que bloqueia o Grande Rio, em seu curso,
que separa a minha da tua mão.
Deixai, Senhor, que eu prove de teu cálice
na justa medida.
Não permiti, Senhor, que eu me embriague,
com tão forte vinho,
que já não entenda a Vida,
que já não veja o Caminho.
Sabeis que, em meu peito, há uma cifra,
uma mensagem.
Há que haver fôlego para entregá-la ao mundo
antes que chegue ao termo esta viagem.
Senhor, fazei com que meu nome seja Entrega,
sonhai comigo sem reservas, sem limites,
pois que tu sabes e, um dia, eu saberei,
que, sem dúvidas, serei
aquilo em que tu acredites.
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Lúcia Helena Galvão
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Aurora, hora cinza, áurea hora,
momento de encontro com Deus.
Transborda sobre a natureza
um plasma divino, cinzento,
que preenche, a cada momento,
os seres, qual recipientes.
Neste contraste entre a escuridão e a luz,
em que se sente estar vivendo um sonho,
posso saber aonde este sonho conduz.
Os homens erram ao pensar
que o sangue de Deus se derramou
um só dia sobre a Terra,
pois ele se derrama em todas as auroras,
sem alcançar, por hora, despertar os homens.
Que são os homens, senão somente nomes
que se dá a gotas de aurora,
agora, isoladas e esquecidas
da fonte comum que lhes deu vida?
Gotas são partes do Deus que se derrama,
aprisionadas no tempo e no espaço.
Episódios deste Deus a quem se ama
e a quem se busca rastrear, pelos seus passos.
Querer ser gota faz que inevitavelmente
despedacemos a Deus.
Podemos vê-lo, aos pedaços, pelas ruas,
perplexo, perdido, a esmo,
com saudades de si mesmo,
da totalidade.
Senhor, esse plasma misterioso,
prisioneiro da gota que sou,
vem ao teu encontro sempre, a cada Aurora.
Sonha ser célula de um Ser inteiro e vivo,
e não uma lágrima, entre mil, de um ser que chora.
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Lúcia Helena Galvão
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Senhor, concedei-me a Poesia...
Sem ela, as cores se afastam,
e a vida que resta é tão fria...
E o coração já duvida,
e o tempo é convertido em nada,
e a alma se cala, sombria,
e o fio se perde, na espada.
Senhor, concedei-me a calma
por trás do vibrar da matéria.
Ensinai, Senhor, como a Alma
destoa ao pulsar da artéria,
mas toma, no ar, vosso pulso,
vê vossas pegadas, no espaço,
estáveis, ainda que etéreas.
Senhor, concedei-me a confiança
que alenta os que marcham sem medo.
Que os sonhos nos soprem segredos
e as dores despertem lembranças.
Que as ânsias por perdas ou ganhos,
estranhos a quem nada espera,
não expulsem as reais Esperanças.
Senhor, concedei-me a graça
de nada pedir, só a entrega
do Sonho, que à terra se nega,
do Amor, que a terra ultrapassa,
da Alma, que, da vossa, é parte.
Da voz, que espera ser ponte,
à Voz, que se expressa na Arte.