Poesia para despertar Sophia

Poemas inspirados em vivências filosóficas

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Grata, Lúcia Helena.

Obs: conheça também o blog de crônicas de  minha autoria: 
www.observacoesmatinais.blogspot.com

As buscas espirituais da humanidade
narram a passagem de sábios perfeitos;
eu acredito que falam a verdade.
Alegra-me saber que alguém cumpriu sua missão,
Que a trilha possui termo e que alguém o atingiu,
Fazendo-se, então, à imagem do Pai.
Que sejam louvados os sábios, que chegaram tão distante...
Mas vos peço, gentilmente,
Compreensão com os que ainda buscam o acesso,
Que buscam, mas longe ainda vão.
 
Que o amor alargue vossos braços
E crie espaço em vosso coração
Para caber os que apenas lutam,
Num passo a passo incessante, insistente,
de escasso rastro deixado para trás.
Dos que mergulham em si sem escafandros,
Com seu esforço, usando todo o ar
para emergir, ainda que com escasso fruto
trazendo algo a oferecer, compartilhar.
 
Aos que retorcem, em dias magros, qualquer luz,
Para lançar uma centelha no caminho.
E saboreiam as centelhas das estrelas
Na confiança de que não estão sozinhos.
 
Destes que choram, ocultos atrás das portas,
Para que a dor não manche vossas esperanças.
Que choram e se encolhem, qual crianças,
Com os seus braços envolvendo seus joelhos.
E que, às vezes, creem-se fracos, creem-se velhos,
Mas que não cessam jamais de caminhar.
 
E, se o Sol reaparece, nas manhãs,
Correm a estar com ele, efusivamente...
Limpam suas armas, luzem seu escudo
E partem para a sua luta novamente.
Pois longa é a estrada, e sua luta é tudo
Que sabem e animam-se a fazer em sua vida.
 
Simples quixotes, com o tempo atrás de si,
Olhando apenas para frente, jamais vencidos,
Vendo um horizonte que só eles podem ver.
 
Ah, tende piedade destes sonhadores
Que tragam suas angústias e suas dores
e se detêm, às vezes, nas calçadas,
Sondando os rostos da humanidade
Buscando sonhos latentes em seus traços.
 
Cantando antigos contos, como bardos,
Numa ânsia por saber, achar respostas...
Mas que ainda têm tão pouco, quase nada...
 
E que ainda lançam aos céus suas mãos postas
Ante um Mistério que não lhes revela o Nome,
E pedem por mais um dia,
E pedem sagas para saciar sua fome,
E pedem alegria,
 
E que haja sol nas suas janelas, nas manhãs,
Para abastecer suas lamparinas;
E que, nas jornadas frias,
Entre tormentas, entre neblinas,
Vestem só suas esperanças.
 
Se tendes algo de amor e compaixão,
Pedi pelos que lutam,
Pois, se não houver sol amanhã,
Abrirão marcha com a migalha escassa
Que lançares ao seu coração.
Ela é bem vinda.
 
Aos quixotes do mundo, voltai vossos votos e vossas orações,
Pois, se a Sabedoria é perfeita,
A marcha dos que buscam é forte e linda,
Persistente, honesta, singela.
Lançai, pois, vossos doces votos,
Rumo a estes tais quixotes
que rondam vossa janela.


Caros amigos: todos os poemas do meu blog foram incluídos em um livro recentemente lançado, de nome "Instantes de um Tempo Interior". Os interessados podem fazer encomendas através do luciahga@hotmail.com. Enviamos pelos correios...


Querida fresta que abri entre dois mundos,
de pouca largura,
discreta, modesta,
mas fresta...

Amo olhar através de ti
e vislumbrar outras perspectivas...
E só confio quando vejo em ti
e certifico que ainda estou viva.

Seja lá o que for que ainda tenha
ou que perdi,
ninguém me tira o alcance, o poder
de ver de novo através de ti.

Só mesmo em ti é que a dor se ilumina
e  até me ensina e me esclarece..
Só com tua luz, a cicatriz não entristece,
e é tão divina...

Só mesmo em ti, tudo que sou, tudo o que fiz
revela um porte tão mais digno, grandioso,
e o meu sonho, ainda que gere pouca obra,
para a visão da minha alma, alcança e sobra.

Talvez não seja mais que isso o que fica,
quando chegar o próximo ou distante fim:
A fresta que abri para que a alma veja,
que mostra e areja algo de Deus que vejo em mim.


Velo teu sono, e nem é assim tão tarde...

Teu corpo treme e arde contra a cama fria,

estranhos sons a tua boca balbucia,

e se recusa ao repouso e ao abandono.

 

A noite corre e meu amor ainda te vela.

Em meio a ela, eu creio, o escuro te ameaça,

Mas o amor, se é puro, é aço: nada passa,

nada atravessa seu calor e sua cautela.

 

Velo teu sono em altas horas, agitado,

e, sem demora, eu respondo ao teu gemido.

No teu ouvido, sussurrei: “Passou! Descansa!

Minha voz avança contra os vultos, ao teu lado...”

 

É já aurora e ainda velo; teu semblante,

não mais qual antes, mas tranquilo, já ressona,

qual fosse um anjo que, agora, vem à tona,

brincar comigo, tua escolta, docemente.

 

Quisera eu saber que, em todo pesadelo,

o Amor me vela, atento ao meu corpo arfante....

E eu, em paz, sereno infante, em seu alento,

libertaria a alma em sonhos, os mais belos...
 
 



"Procura a satisfação de veres morrer
os teus vícios antes de ti." (Sêneca)

Tendo vivido sob a égide de Atena,
sob esta mesma imagem, hoje, eu repouso.
Sobre esta terra em que o meu corpo pouso,
peço que o sono seja só o suficiente,
nada mais,
para afiar e renovar minha alma ardente,
e renascer na terra entre os meus iguais...
Pois os filhos de Atena,
do poderoso Zeus, da Métis, tão serena,
encontram na ação prudente a sua paz.
Para o descanso, quero ter um só momento,
e pouca sede levo ao rio do esquecimento,
guardo  a missão, que não se perderá jamais.
Para os que amo, a certeza e a segurança:
o amor real é pacto sólido, aliança
que o fio contínuo, vida e morte, só valida.
E aos que eu não conquistei amar ainda,
quando esta forma me abandona e a vida finda,
firmo, em nome da Unidade, um compromisso:
ainda que haja um precipício de egoísmos,
Trabalho, Amor, Vontade sempre vencem abismos...
Hei de tornar à terra e trabalhar por isso.

Detém-te e olha à tua volta, antes, adiante.
Atentamente, olha também dentro de ti.
Há algo raro e especial neste instante,
que já não pode esperar para ser visto.
Há um sinal oculto atrás de tudo isto,
e há que lê-lo antes de seguir em frente.

Há qualquer coisa a colher, talvez a flor
de um jardim distante, antigo e esquecido.
Há um recado a entregar e a receber,
e algo a sarar, algo a polir, alguma dor.
Há uma conta a acertar, um beijo a dar,
um ponto a ver.
E há que examinar as malas e rever
se nada urgente foi deixado para trás.
ou se nada é demais,
se há peso morto a abandonar agora...

Há que escorar, ainda, um galho que está torto
de uma roseira bem ali, perto da casa.
Há uma ave que quebrou a frágil asa
e não consegue mais voar ou se mover.
Há tanto ainda para ouvir e para ver...
Não estás pronta,
não é ainda,
não é agora.

Em algum canto, há alguém que ainda chora,
e sabes que também é teu, o árduo pranto.
E há amor a cultivar e a colher, tanto...
E há mil palavras à tua espera para ser ...
Não é agora.
Não deve ser.

Recolhe em ti todo teu ímpeto e cansaço,
guarda contigo teu assombro e traz teu encanto.
Quando te fores, antes do último passo,
tudo há de estar quitado e pacificado.
Não porque temas ou infernos ou pecados,
mas porque sabes que é este o teu dever.

Sabes que há em ti duas vozes, pelo menos,
e uma ainda deve à outra o grande acerto
antes do qual não há epílogos ou acenos
mas só o imperativo:
Deves Ser.
E, isto sim,
é para agora.




Verão
voragem de vida
que, com luz, varre a terra: bem vinda!
Onde o impulso dos ciclos se finda
e imprime suas marcas no chão...

Veraz
projeção de ideias no mundo,
mandamento que ordena e ilumina,
como fosse a própria mão Divina
que se estende aos dedos de Adão.

Veremos
nosso solo irradiar e arder,
em seu cume de brilho e poder,
aquecendo a quem deve aquecer:
os diletos frutos da estação.

Veloz
vai quebrando a inércia humana,
semelhante ao audaz caçador
que contempla a desnuda Diana,
soberana em Beleza e Valor,
Natureza.
  
Valeis
como um prêmio aos que hão semeado,
como um sonho, num mundo gelado,
que nos fez prosseguir, caminhando,
mesmo imersos em tal escuridão...

Valemos,
pois aqueles que aqui estamos,
conquistamos tua luz e calor,
e, por nós, em um ato de amor,
ofertado a um tempo vindouro,
outros homens de ouro... Verão.



Tua presença, densa, roça em meu rosto,
mas não alcanço transportá-la
ao ponto de serenidade e de descanso,
onde se faz tão esperada e necessária.

Sozinha com meu gato, recolhida a um canto,
Sob a luz de um suave raio e um breve vento,
tento entender, com meu escasso entendimento,
o que escapa ao amplo campo da ilusão.

Queria que meu coração fosse uma rede,
onde partículas Tuas fossem retidas,
Partículas de luz e de vida...

Lembra que ainda não cresci o suficiente
para deixar de temer a escuridão!

Nunca cheguei a ser tão plena e tão pura
para alcançar ser tão segura, e conter
tudo o que tens mandado para mim.
Não sou, ainda, de fato, nem de perto,
o que o atrevido sonho tentou Ser...

Mas posso ser a resistente rede,
de malha bem forte, cerrada,
onde a gota de Ti seja retida,
como passaporte para a vida.

Onde a parte de ti seja guardada,
e a que resta, seja sempre descartada,
para sempre, escoada e esquecida.

Guardada, assim, a parte certa, em campo aberto,
talvez conduza a Tua presença ao ponto certo,
e, só então,
jamais me sinta, de novo, dividida,
jamais perceba de novo a solidão.

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